7 de fevereiro de 2008

Estudante afegão é condenado
à morte por fazer pensar



Esse menino aí na foto tem 23 anos e é estudante de jornalismo. Se ele vivesse em qualquer outro lugar que não o Afeganistão seria mais um universitário encantado com as possibilidades que o debate de idéias proporciona.

Acontece que ele é afegão e por isso – só por isso – foi condenado em 22 de janeiro à pena de morte após distribuir aos colegas de classe na Balkh University um artigo que põe em debate os argumentos dos fundamentalistas, que usam passagens do Alcorão para justificar a opressão aplicada às mulheres afegãs. O texto questionaria a poligamia e afirmaria que os muçulmanos ultraconservadores só encontram tal justificativa por manipularem as palavras do profeta Maomé, forjando a interpretação "oficial".

O rapaz, Sayed Pervez Kambaksh, distribuiu o artigo a colegas e professores com o intuito de provocar o debate sobre o tratamento dispensado às mulheres no Afeganistão. Foi o suficiente para, sem mais nem menos, ser levado por autoridades supostamente defensoras do islamismo, preso e condenado à morte – tudo isso sem direito de defesa.

Grupos de direitos humanos ligados à ONU, organizações jornalísticas e diplomatas ocidentais já apelaram às autoridades afegãs para que anulem a pena de morte, mas o Senado do país não arredou pé.

O jornal britânico The Independent levantou bandeira em prol da revisão da pena (a matéria original, publicada em 31 de janeiro, pode ser vista
aqui). Montou um abaixo-assinado no site que pode salvar a vida desse cara codenado por tentar fazer pensar. Segundo o The Independent, a execução de Sayed Pervez Kambaksh ainda pode ser revertida desde que haja suficiente pressão internacional sobre o presidente afegão, Hamid Karzai.

É bom lembrar que esse absurdo está acontecendo em um Afeganistão que, em tese democrático, deveria no mínimo se mostrar menos totalitário seis anos depois de “liberto” da insanidade taleban. Que o mundo está do avesso não é novidade, mas daí a matar uma pessoa que só quis levantar um questionamento é loucura demais, é maldade demais.

Quem contribuir com esse abaixo-assinado estará fazendo um bem para a humanidade. Só milhares de Sayed´s podem mudar o rumo da História afegã. Assina, vai? Basta colocar nome, e-mail e país.

A notícia atualizada pode ser vista
aqui, na FOL desta quinta, dia 7.

*Imagem: Reuters

1 de fevereiro de 2008

Sorri, colombina

Saiu para pular o carnaval com coração de colombina que se perdeu do pierrô. O sorriso é parte da fantasia. Corpo e alma calibrados, caminha rumo à avenida.

Cada lantejoula, cada pedacinho de cetim com paetê rosa e branco, tudo nela foi minuciosamente arranjado para que ficasse perfeito, da maquiagem profunda às pestanas postiças.

De samba decorado e espírito embriagado toma seu lugar no enredo. Nessa hora – só nessa – brinca que o pierrô perdido já não mais existe senão no passado.

Segue a bateria para saturar a alma, para deixá-la por instantes sem espaço para mais nada além da percussão.

Roda, gesticula, sorri para a arquibancada um sorriso para ninguém. Quem olha vê a alegria encarnada na colombina a carnavalizar.

Melhor assim. Não quer revelar que em verdade só pisou na avenida para não lembrar.